15 de novembro de 2017

meio

talvez eu seja um inteiro.
mas, às vezes, eu me sinto...

                                                    ...   meio    ...
     

meio calorenta
meio fria
meio cheia
meio vazia

meio cansada
meio fim-de-festa
meio com dor no
meio da testa

meio maria mole
meio sem perceber
meio joão apaixonado
meio sem querer

meio mesquinha
meio amada
meio sozinha
meio acompanhada

meio sem sorte
meio perdida
meio ao léu
meio sem partida

    no meio de uma história
         meio sem fim
onde meio que perdi o
         meio inteiro de mim

     meio sem teto
no meio de uma escada

sou um meio de tudo e
      um meio de nada.

26 de julho de 2017

mundo cão

     "o filme tem que ter diálogo", disse Marcos Jorge antes de começar aquela última sessão de inverno do CineCafé. "tá", pensei. "é verdade, mas a história é sobre cachorros... acho que não vai me acrescentar muita coisa". 
     o roteirista sai do palco, a luz é apagada e o longa-metragem começa. o filme se passa nos subúrbios de são paulo, onde Santana (babu santana), casado e pai de dois filhos, trabalha num centro de controle de cães chamado zoonoses (carrocinha). Santana, que mora no bairro Santana e dirige um Santana 2000, é um cidadão educado; comum. respeita a esposa, brinca com os filhos, toca bateria e vai para igreja aos domingos. num certo dia de trabalho, Santana e seu colega capturam um rottweiler que perambulava numa escola e levam o cão perdido para o centro de controle. antes de ser sancionada a lei que proíbe o sacrifício de animais abandonados, os cães capturados pela carrocinha eram sacrificados após 3 dias da captura - caso o dono não aparecesse para buscá-los. dessa forma, depois de três dias, os funcionários do zoonoses sacrificaram o dito cujo. tarde demais, o dono do animal chega e se depara com a cena do bichinho de estimação morto. Nenê (lázaro ramos) era um ex-policial de temperamento fortíssimo que, ao ver o cãozinho embalado numa sacola, culpa Santana das regras do zoonoses e ainda o ameaça de morte. acreditem em mim, esse é só o começo. no decorrer da história ainda tem sequestro, perseguição e jogo do Palmeiras. claro, tudo com um toque -moderado- de humor brasileiro. como não pretendo soltar nenhum spoiler, termino a sinopse (resenha?) por aqui mesmo. 
     acho que este é um bom momento para contar o nome da obra: Mundo Cão (2016) -que de cachorro não tem quase nada. o filme é apenas um reflexo da própria realidade e nos faz refletir sobre os nossos valores e princípios, não os dos personagens. "quem é o vilão e quem é o mocinho da história?" é apenas um das várias reflexões que a trama traz. 
     ao fim dos 122 minutos de filme (tem cena pós-créditos!), as luzes foram reacendidas e o diretor do filme volta ao palco. (esse foi o 4° longa-metragem de ficção de Marcos Jorge e já ganhou dezenas de prêmios em todo o mundo. inclusive, será regravado por chineses!). uma mão se levanta. o microfone vai até o homem de meia-idade. "boa noite, Marcos. primeiramente, parabéns pelo filme. achei muito legal. gostaria de saber sobre (...)" e começam as discussões sobre os aspectos sociais, éticos, culturais e técnicos do filme. hora ou outra, Marcos Jorge soltava um "sou muito orgulhoso disso" quando se referia a alguma cena e ele realmente tem muito do que se orgulhar, afinal, seu trabalho fez jus à arte que o cinema é. o roteirista nos contou sobre a "temperatura emocional das cenas",  sobre como roteiros devem ser uma "obra literária", sobre o realismo nos detalhes e depois até revelou algumas referências (como o caso da Eliza Samudio e um documentário dos anos 60 que corria o mundo gravando coisas bizzarras, por exemplo).
     já no final da discussão, dois caras da plateia levantam as mãos. "somos recém formados em cinema, você pode dar um conselho pra gente?". silêncio. Marcos reflete um pouco e começa: "você precisa de três coisas: talento, persistência e resiliência". e isso acabou abrindo uma pequena discussão sobre as diretrizes do cinema no Brasil. "ser roteirista é um risco. é preciso lutar muito por aqui". não é preciso ser cinéfilo para reconhecer a grandiosidade de Mundo Cão, até porque, como o próprio Marcos Jorge disse "uma história pode ser local, mas alguns assuntos são universais". no fundo do fundo, todo mundo é igual e é por isso que alguns temas são relevantes para toda e qualquer pessoa - seja no Brasil, seja na China -, afinal, o mundo é mesmo um cão pra todo mundo.


obrigada, Marcos Jorge, pelo diálogo que a sua obra nos trouxe. 

12 de maio de 2017

inflamação aguda ou crônica da mucosa do estômago


pensar no que não tenho
pensar no que tive.
pensar no que nunca terei
pensar no que teria

pensar nas chuvas que não choveram
pensar no desespero.

pensar em você
pensar no leite que ainda não derramei
pensar no que dizer
pensar em quê?

pensar nas árvores
pensar na liberdade
pensar naquele bolinho
pensar no que estão pensando...
pensar no quadro verde
pensar no cartão postal
pensar no próprio poste
pensar no que poderia ter dito
pensar nas ovelhas perdidas
pensar nos times
pensar no azul

pensar no amar
pensar em mim
pensar sobre pensar
pensar no fim.

pensar nas incertezas
pensar no amarelo

pensar em quem disse que
pensar nos pássaros é
pensar sem nenhum limite.
pensar menos quando perceber que
pensar deveras é uma baita gastrite.





                 
                                                                                             

25 de janeiro de 2017

hoje é terça ou quarta?

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o que realmente importa -MCP pg. 84-86

O intelecto cultivado é grande tesouro;
sem, porém, a suavizante influência da compaixão e do amor santificado, não é ele de grande valor.
...todo ato de justiça, misericórdia e benevolência produz melodia no Céu.
Devemos esquecer-nos a nós mesmos, sempre à espreita de oportunidades - mesmo em coisas pequeninas - para mostrar gratidão pelos favores recebidos de outros, e estar atentos para observar oportunidades para animar outros, confortando-os em suas tristezas e aliviando-as as cargas por mostras de terna bondade e pequenos anos de amor.  -3T 539 e 540 (1875).

24 de janeiro de 2017

questões do vácuo existencial #algumnúmero

a gente espera que algum dia possa entender.
que seja para ter a compreensão de algum conceito ou de por quês aleatório da jornada vital.
mas a gente espera que seja logo, pois mesmo um por quê aleatório é necessário de ser entendido com pressa.
por que, então, com pressa não entendemos tudo?
a gente espera que algum dia possa entender...

mcp pg.79 (tarefa exigente)

Ele pergunta a esses instrutores impetuosos:
"É esta a maneira em que tratais as almas pelas quais dei Minha vida?
Não tendes em maior estima o infinito preço que paguei por sua redenção?".
-4T 419 (1880)

18 de outubro de 2016

Amarelo

O centenário coelho que dorme debaixo da sua cama me visitou hoje de manhã.
Ele parecia um pouco desapontado.
Além da costumeira lamentação pelo preço da cenoura brasília, 
derramou algumas lágrimas ao lembrar da torta de banana de Filomena.
Nessa visita, seu Alfredo também me contou uma história sobre os Gerônimos da TV Tupi
recitou o poema das sete faces sete vezes.
Como seu Alfredo me fez rir! Desta vez ele inventou de me ensinar valsa... 
Tropecei nele tantas vezes que mal pude contar. Deve ser porque coelhos, mesmo os idosos, costumam dançar mais rápido dos que os humanos. 
Pobre Alfredo, já nem enxerga direito...
Mas ainda enxerga coisas que mais ninguém vê.
Ele sempre comenta algo sobre xantofobia e da gentinha que sofre disso.
Fico muito reflexiva quando ele vai embora.
Antes de sair de casa, o ancião me entregou um envelope cor-de-abóbora.
Aconselhou-me a não abrir na frente de ninguém e saiu...

Quando a chegou hora cacau-da-Bahia, fui ter com meus botões.
Sentei na grande poltrona com o envelope embaixo do braço e nas mãos uma bandeija com mamão papaia.
Deixei a bandeja no encosto da poltrona e peguei o invólucro.
Ele tinha um cheiro doce.
Abri.
Qual não foi a minha surpresa ao encontrar dentro daquele envelope muitos
mas, muitos e muitos mosquitinhos dourados!    
Estava junto um breve poema.

“O tempero de açafrão
Tem a doçura do mel.
Pois, enquanto você sorrir,
Amarelo será a cor do céu”.

Ô, seu Alfredo. Você não pode ter vindo debaixo de uma cama.
Ah, seu Alfredo, se o seu dono fosse assim...


5 de outubro de 2016

Assunto: GOOOOOOD MORNING, VIETNAM!!!‏

De: Julie Grüdtner (julie_grudtner@hotmail.com)
Enviada:quarta-feira, 5 de outubro de 2016 11:55:59
Para:Mirian Montanari Grüdtner (grumon_grumon@hotmail.com)
Bom dia, mãe! Estou planejando fazer meus trabalhos da facul nos primeiro dias do feriado, pretendendo estar livre até quarta-feira. Você vai querer me ajudar! São trabalhos do tipo assistir a documentários e filmes interessantes, entrevistar o prefeito e gravar reportagens. Vai ser massa. 
Ah, falando em massa, quero aproveitar o tempo livre para melhorar os meus dotes culinários! Pode apostar que vai sair muita coisa boa daquela cozinha. Até cogitei a ideia de começar um caderninho de receitas, o que você acha? #prontapracasar #sqn
Não podemos nos esquecer de discutir sobre o meu intercâmbio. Possibilidades, ideias e planos precisam ser pensados!
Por enquanto é isso, aguardo sua resposta ansiosamente.

Obs. O assunto deste e-mail é o nome de um filme com o Robin Williams muuuuito maneiro! O papai vai amar.

"Se vogliamo che tutto rimanga com'è, bisogna che tutto cambi." -Tomasi di Lampedusa

ARRIVEDERCI!

Re: contato e requerimento‏

De:Mirian Montanari Grüdtner (grumon_grumon@hotmail.com) Este remetente está na lista de contatos.
Enviada:quarta-feira, 28 de setembro de 2016 12:38:44
Para:Julie Grüdtner (julie_grudtner@hotmail.com)
Really?? To ouvindo desde sábado 2h a day de English.  Arrivederci!   Te amo!! E-mail do papis: gilson.grudtner@ucb.org.br

Enviado do meu iPhone

27 de setembro de 2016

Delivery Status Notification (Failure)‏

This is an automatically generated Delivery Status Notification. 
Delivery to the following recipients failed: grumom_grumom@hotmail.com



"Mãe, desativei meu facebook por motivos de perda de tempo e estresse. Portanto, vamos ter de manter contato por aqui (tá osso! mas prefiro assim).
Preciso de saber o seu número de telefone e o e-mail do papai, urgente. 
Ah, agradeça a ele pelo depósito das 'méri quei' e, se puder, me liga perto das 19h.
Grazie, mamma. Arrivederci!"

From: julie_grudtner@hotmail.com
To: grumom_grumom@hotmail.com
Subject: Contato e requerimento
Date: Tue, 27 Sep 2016 15:46:45 -0300


22 de setembro de 2016

gn 15´4,5

4. A isto respondeu logo o Senhor, dizendo: Não será esse o teu herdeiro; mas aquele que será gerado de ti será o teu herdeiro.
5. Então, conduziu-o até fora e disse: Olha para os céus e conta as estrelas, se é que o podes. E lhe disse: Será assim a tua posteridade.

20 de setembro de 2016

Agostinho, Setembrinho e Ronaldinho

Eis um texto apelativo sem apelos.

Este ano, Ronaldo Fenômeno completou 40 anos de idade, fez 20 anos desde a morte dos Mamonas Assassinas e 21 anos de Malhação. Michael Jackson virou estrelinha há sete anos e Zequinha, o mais novo dos três irmãos em Castelo Rá Tim Bum, fez 31 anos de idade. Para fechar, o interminável agosto terminou e esse mês também está quase no fim. São estes fatos e o especial de Natal do Roberto Carlos na Globo que nos sensibilizam com a questão da passagem de tempo.
Mesmo sabendo que se deve viver um dia por vez, tornou-se comum chegar ao fim do dia com sentimento de frustração por não ter concluído os mil afazeres erroneamente previstos. Acabamos por questionar a nossa capacidade de produção e ainda nos damos o direito de perguntar o porquê de um dia ter apenas 24 horas. “Se eu tivesse 30 horas, com certeza conseguiria terminar esse projeto e até descansaria mais”.  Essa semana seus amigos saíram e você não foi por não ter tempo. Você também não conseguiu ler todos os doze livros que havia planejado no final do ano passado. Sabe aquela meta de correr todos os dias? Também não foi cumprida. Essa é a lamentável realidade de que, em termos de perda de tempo, a situação pode sempre piorar. Porque perdemos tempo o tempo todo. Porém, as propostas que se seguirão neste texto nada têm a ver com carpe diem e carpe noctem.
Antes de tudo, é preciso ter consciência de que ninguém está livre da preocupação com o tempo, uma vez que esse problema, por assim dizer, está presente no ser humano desde a sua criação. Por isso é confortante saber que vários filósofos nos pouparam tempo (e dores de cabeça; talvez algum descontentamento também) por já haverem concluído o que provavelmente passaríamos uma vida inteira para possivelmente concluir.
Entra Santo Agostinho com o seu livro XI de Confissões. “O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não o sei.”  Portanto, somente entendemos o tempo antes de pensarmos nele. Essa afirmação não é nenhuma resposta, mas esclarece a limitação do ser humano em entender a temporalidade. Não tendo a capacidade de entender o tempo, estamos sujeitos a ele. O fato de o ser humano não possuir domínio sobre a passagem de cada segundo não quer dizer que ele não possa decidir o que fazer neles.
Uma vez colocado o tempo no seu devido lugar, são levantados questionamentos sobre como empregá-lo. Entra Henri Bergson. Para ele, parte da resposta está na atividade filosófica, assim como na arte, afinal, ela nos força a pensar e a buscar soluções conceituais criativas. Fazer isso, para o filósofo francês, é um ato de libertação da ditadura do tempo. Buscar soluções conceituais criativas, pensar em causas e consequências. Tá aí uma das formas de se encontrar no mundo e ser um presente para ele. Como encontrar essas soluções? Basta passar tempo refletindo que você encontrará. Caso você não encontre nas suas reflexões, procure em algum livro. Talvez esteja num daqueles que você planejou ler no início do ano e não conseguiu.
Como animal racional, faz parte do nosso dever enquanto seres humanos agir como tais. Para isso, é inexoravelmente necessário compreender os conceitos básicos da vida e atribuir prioridades à existência, afinal, o próprio sentido dela está nos atos de compreensão e atribuição. Entendido que as nossas prioridades são determinadas pelo tempo que dedicamos a elas, compreenderemos que a perda de tempo está logicamente na inversão dessas prioridades. Em outras palavras, o que define o tempo é o que você faz nele. Tempo gasto com certo tipo de estudo, indica a importância e relevância que você dá a ele.
Este texto termina sem apelo. Não posso provar se é verdade tudo o que escrevi assim como não posso provar se é verdade tudo o que Agostinho e Bergson escreveram. Bem, o mês está acabando e o verão está chegando. Depois virão outros outonos e outros invernos, outros anos e novos tempos. Quem sabe até lá você não descubra se estas palavras são reais ou se a preocupação com tempo não passa, enfim, de uma grande perda de tempo...