18 de outubro de 2016

Amarelo

O centenário coelho que dorme debaixo da sua cama me visitou hoje de manhã.
Ele parecia um pouco desapontado.
Além da costumeira lamentação pelo preço da cenoura brasília, 
derramou algumas lágrimas ao lembrar da torta de banana de Filomena.
Nessa visita, seu Alfredo também me contou uma história sobre os Gerônimos da TV Tupi
recitou o poema das sete faces sete vezes.
Como seu Alfredo me fez rir! Desta vez ele inventou de me ensinar valsa... 
Tropecei nele tantas vezes que mal pude contar. Deve ser porque coelhos, mesmo os idosos, costumam dançar mais rápido dos que os humanos. 
Pobre Alfredo, já nem enxerga direito...
Mas ainda enxerga coisas que mais ninguém vê.
Ele sempre comenta algo sobre xantofobia e da gentinha que sofre disso.
Fico muito reflexiva quando ele vai embora.
Antes de sair de casa, o ancião me entregou um envelope cor-de-abóbora.
Aconselhou-me a não abrir na frente de ninguém e saiu...

Quando a chegou hora cacau-da-Bahia, fui ter com meus botões.
Sentei na grande poltrona com o envelope embaixo do braço e nas mãos uma bandeija com mamão papaia.
Deixei a bandeja no encosto da poltrona e peguei o invólucro.
Ele tinha um cheiro doce.
Abri.
Qual não foi a minha surpresa ao encontrar dentro daquele envelope muitos
mas, muitos e muitos mosquitinhos dourados!    
Estava junto um breve poema.

“O tempero de açafrão
Tem a doçura do mel.
Pois, enquanto você sorrir,
Amarelo será a cor do céu”.

Ô, seu Alfredo. Você não pode ter vindo debaixo de uma cama.
Ah, seu Alfredo, se o seu dono fosse assim...


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