20 de setembro de 2016

Agostinho, Setembrinho e Ronaldinho

Eis um texto apelativo sem apelos.

Este ano, Ronaldo Fenômeno completou 40 anos de idade, fez 20 anos desde a morte dos Mamonas Assassinas e 21 anos de Malhação. Michael Jackson virou estrelinha há sete anos e Zequinha, o mais novo dos três irmãos em Castelo Rá Tim Bum, fez 31 anos de idade. Para fechar, o interminável agosto terminou e esse mês também está quase no fim. São estes fatos e o especial de Natal do Roberto Carlos na Globo que nos sensibilizam com a questão da passagem de tempo.
Mesmo sabendo que se deve viver um dia por vez, tornou-se comum chegar ao fim do dia com sentimento de frustração por não ter concluído os mil afazeres erroneamente previstos. Acabamos por questionar a nossa capacidade de produção e ainda nos damos o direito de perguntar o porquê de um dia ter apenas 24 horas. “Se eu tivesse 30 horas, com certeza conseguiria terminar esse projeto e até descansaria mais”.  Essa semana seus amigos saíram e você não foi por não ter tempo. Você também não conseguiu ler todos os doze livros que havia planejado no final do ano passado. Sabe aquela meta de correr todos os dias? Também não foi cumprida. Essa é a lamentável realidade de que, em termos de perda de tempo, a situação pode sempre piorar. Porque perdemos tempo o tempo todo. Porém, as propostas que se seguirão neste texto nada têm a ver com carpe diem e carpe noctem.
Antes de tudo, é preciso ter consciência de que ninguém está livre da preocupação com o tempo, uma vez que esse problema, por assim dizer, está presente no ser humano desde a sua criação. Por isso é confortante saber que vários filósofos nos pouparam tempo (e dores de cabeça; talvez algum descontentamento também) por já haverem concluído o que provavelmente passaríamos uma vida inteira para possivelmente concluir.
Entra Santo Agostinho com o seu livro XI de Confissões. “O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não o sei.”  Portanto, somente entendemos o tempo antes de pensarmos nele. Essa afirmação não é nenhuma resposta, mas esclarece a limitação do ser humano em entender a temporalidade. Não tendo a capacidade de entender o tempo, estamos sujeitos a ele. O fato de o ser humano não possuir domínio sobre a passagem de cada segundo não quer dizer que ele não possa decidir o que fazer neles.
Uma vez colocado o tempo no seu devido lugar, são levantados questionamentos sobre como empregá-lo. Entra Henri Bergson. Para ele, parte da resposta está na atividade filosófica, assim como na arte, afinal, ela nos força a pensar e a buscar soluções conceituais criativas. Fazer isso, para o filósofo francês, é um ato de libertação da ditadura do tempo. Buscar soluções conceituais criativas, pensar em causas e consequências. Tá aí uma das formas de se encontrar no mundo e ser um presente para ele. Como encontrar essas soluções? Basta passar tempo refletindo que você encontrará. Caso você não encontre nas suas reflexões, procure em algum livro. Talvez esteja num daqueles que você planejou ler no início do ano e não conseguiu.
Como animal racional, faz parte do nosso dever enquanto seres humanos agir como tais. Para isso, é inexoravelmente necessário compreender os conceitos básicos da vida e atribuir prioridades à existência, afinal, o próprio sentido dela está nos atos de compreensão e atribuição. Entendido que as nossas prioridades são determinadas pelo tempo que dedicamos a elas, compreenderemos que a perda de tempo está logicamente na inversão dessas prioridades. Em outras palavras, o que define o tempo é o que você faz nele. Tempo gasto com certo tipo de estudo, indica a importância e relevância que você dá a ele.
Este texto termina sem apelo. Não posso provar se é verdade tudo o que escrevi assim como não posso provar se é verdade tudo o que Agostinho e Bergson escreveram. Bem, o mês está acabando e o verão está chegando. Depois virão outros outonos e outros invernos, outros anos e novos tempos. Quem sabe até lá você não descubra se estas palavras são reais ou se a preocupação com tempo não passa, enfim, de uma grande perda de tempo...

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